Estou a escrever directamente no blogue para nem sequer cair em tentações de resguardo. Exponho porque me conheço. Tinha dúvidas em escrever aqui, num espaço público, algumas histórias que vivo por cá, porque sei que não estou apenas a viajar, sei que venho como voluntária através de uma ONG que, a cada dia, admiro mais profundamente; sei que poderá haver susceptibilidades que, sem querer, se sintam feridas. Mas isso seria se não me conhecesse… Estou aqui porque respeito, do meu fundo, este povo e é SEMPRE com essa certeza que as palavras me sairão das mãos.
Hoje caiu-me uma asa.
(no seu lugar fica um abismo)
Sabia que vinha para África. Tão grande, tão inicial. Não tinha a menor dúvida que me ia surpreender a cada passo, que ia aprender, ajudar, dar-me. Mas não sabia. Não sabia o que era verdadeiramente um momento solene. E foi um momento tão cru que se transformou em eternidade.
Depois de alegrias, jogos da bola, desenhos de mãos e alguns cansaços, apagou-se a manhã com a chegada da refeição. Calaram-se os risos. Sentaram-se nas cadeiras e mesinhas, minúsculos e gigantes no seu silêncio. São servidas as sopas e ninguém lhes toca. Ninguém lhes toca. Nem a fome. Todos têm uma taça à frente. Não sei pelo que esperam. Eu desespero, sem ousar qualquer som. Até que começam. Lenta e tão silenciosamente. Começam.
Eu choro-me na minha mudez sem perceber em que pensavam antes de começarem a comer. O que lhes parou o riso. Acho que nunca vou saber. Nunca vou saber que imensidão lhes esmaga a voz naquele instante. Falo de crianças, entre os dois e os quatro anos. E de um Centro Comunitário que tenta contornar-lhes a vulnerabilidade.
A mim…
Caiu-me só uma asa.
No seu lugar ficou um abismo.
Hoje caiu-me uma asa.
(no seu lugar fica um abismo)
Sabia que vinha para África. Tão grande, tão inicial. Não tinha a menor dúvida que me ia surpreender a cada passo, que ia aprender, ajudar, dar-me. Mas não sabia. Não sabia o que era verdadeiramente um momento solene. E foi um momento tão cru que se transformou em eternidade.
Depois de alegrias, jogos da bola, desenhos de mãos e alguns cansaços, apagou-se a manhã com a chegada da refeição. Calaram-se os risos. Sentaram-se nas cadeiras e mesinhas, minúsculos e gigantes no seu silêncio. São servidas as sopas e ninguém lhes toca. Ninguém lhes toca. Nem a fome. Todos têm uma taça à frente. Não sei pelo que esperam. Eu desespero, sem ousar qualquer som. Até que começam. Lenta e tão silenciosamente. Começam.
Eu choro-me na minha mudez sem perceber em que pensavam antes de começarem a comer. O que lhes parou o riso. Acho que nunca vou saber. Nunca vou saber que imensidão lhes esmaga a voz naquele instante. Falo de crianças, entre os dois e os quatro anos. E de um Centro Comunitário que tenta contornar-lhes a vulnerabilidade.
A mim…
Caiu-me só uma asa.
No seu lugar ficou um abismo.
Muito bem escrito e sobretudo muito humano. Como aliás o teu coração.
ResponderEliminarVi o link para o seu blogue no Bom Sacana. Acabei de ler o seu post. Posso imaginar a sua dor, porque, mesmo sem estar perto dessas crianças, já estou em lágrimas. Fora isso, como escreveu Pulha Garcia, você escreve muitíssimo bem. A imagem "Hoje caiu-me uma asa.
ResponderEliminar(no seu lugar fica um abismo)" é de arrepiar a alma.
Era preciso fazer-me chorar?
ResponderEliminarImagino o que sentiste, conheço esses rostos e
esses silêncios...
Não tenho coragem para escrever mais!
Oi, minha querida... pega essa asa do chão... eles precisam de teu bater de asas para continuar a caminhada...
ResponderEliminarDá para reinventares a fantasia dessa tua asa danificada e voltares a voar...eles dependem disso.
Laura
Também acho que para essas crianças.faz mais
ResponderEliminarfalta essa asa a bater, do que o abismo que lá ficou.Para eles, comer é uma coisa "séria".
Gostaria de te poder dar um beijo na asinha e com isso, reconfortar-te, mas eu sei que o
dói-dói não passa com essa facilidade...
Amo-te
Pulha:
ResponderEliminarE tu achas-te pior do que és… eu sei…
Beijo
Bípede:
Também já te conhecia através do nosso sacana… obrigada pelas tuas palavras. Por acaso hoje estava mesmo a precisar de uns afagos…
Céu e Nanda:
Que tias babadas (eheheh). Eu sei que posso contar sempre convosco. Além de que imagino que conheçam bem do que falo. Um abismo não é uma queda certa. Continuo forte. Apenas frágil.
Laura:
Oh Laura das minhas Argentinas… já reinventei. Aliás, por aqui, reinvento-me todos os dias.
Obrigada! Beijos
Como sabes, comecei por conhecer África através de cartas que a tia Nanda me escrevia quando eu era pequenina. Com ela conheci "o som" do nascer e do pôr-do-sol em África. Contigo sabia que ia conhecer outro lado. Sem ter de ser oposta à África da tia Nanda, seria obrigatoriamente outra. Aqui está: o silêncio.
ResponderEliminarBeijinho
claruxa,
ResponderEliminarNão tenho tido tempo para vir à net, mas penso em ti várias vezes!!
Não esperava outra coisa de ti se não o que tens escrito, espectacular!
beijo grande
tininha
Zimboraaaa
Que horror, não tenho palavras... acredito que vais fazer um bom trabalho, mas sei que vais ver aquilo que normalmente não se vê, nem se conta... Força
ResponderEliminarMagda
Ui!!... Já sabiamos que não seria fácil. Muita força.
ResponderEliminarMarta
Sound and Fury...:
ResponderEliminarHá silêncios e sons, ambos esmagadores.
Tininha:
Comé? Já de regresso!?
Ziiiimboooora! Eu e a Marta esperamos-te no mail...
Magda:
Algo farei, se será um bom trabalho... espero que sim.
Marta:
Eu acho que não sabia nada... Mas a tua força cá chega!
Borboleta, depois que estive aqui, escrevi no meu blog o post Fértil, inspirado em você e nas suas palavras. Daí, um blogueiro sugeriu fazermos um blog coletivo, um outro que fizemos algo que unisse as pessoas que falam a nossa língua, tanto a portuguesa quanto a amorosa, então, estou aqui, para ver o que você acha, se pode participar, sem tem dicas de outros blogues para visitarmos, qualquer coisa fértil como você.
ResponderEliminaruma história tão misteriosa como as lendas africanas.. é curioso... as nossas histórias populares têm sempre uma moral e uma explicação, as africanas não, pelo contrário, expoem o mistério...
ResponderEliminarestou numa aula de AP e vim aqui para escrever, para comentar o post dos passarinhos... mas ao ler este último... não sei, só consigo ficar em silêncio...
ResponderEliminarBeijinho, força!
Melina
Lindo... triste... Tornas demasiado fácil sentir esse silêncio que esmaga =(
ResponderEliminarBípede Falante:
ResponderEliminarObrigada pelo post e pelo convite! Vai-me pondo a par das vossas invenções e verei como poderei colaborar. Ando longe no mundo, como sabes. Mas cá estarei para escritas e palavras.
Alf:
Mistério... sim, talvez uma das melhores palavras para definir este continente!
Melina:
Vai já para a aula!! Um professor é professor para sempre, por isso ouve-me com atenção: não te quero distraída com as minhas palavras. Vá… para a aula! Pensamos depois.
H4ardDrunk3r:
Se não soubesse já deste teu nome estranho, estranhava-te!
Por estas bandas esmaga-nos alguma dificuldade...
Obrigada pelas palavras. Passo a seguir as tuas, também.
Olá Clara! Definitivamente, já não passa um dia... sem passar por cá! por Moçambique, pelo Chibuto e Chimundo, por ti, pelas tuas histórias (que são muito mais que isso).
ResponderEliminar... mas não te preocupes, de cada vez que venho e não encontro nada novo... releio, leio e volto a ler e de cada vez que o faço GOSTO ainda mais!
Fica bem!
e toma bem conta de ti!
beijos
Mizé
Clara, tens uma escrita soberba! Dá vontade de ler varias vezes...
ResponderEliminarLi acima: "comer para eles é uma coisa séria"
e é isso! deve ser só, e apenas isso. aprendi algo.
Bjs e coragem
Pedro
Mizé:
ResponderEliminarChove torrencialmente e não posso sair de casa, por isso passei por aqui. Que bom ler-te. Uma injecção de auto-estima nunca fez mal a ninguém!ehehe! Obrigada! Vamo-nos encontrando por mails e por aqui!
Beijinhos
Pedro:
O momento mais solene a que já assisti. Continua a impressionar-me todos os dias...
Obrigada pela força!
Estou a reler e a "postar" ao contrário.
ResponderEliminarSão momentos solenes, como penso que eram antigamente na nossa sociedade, são momentos que perdemos, que deixámos de valorizar(?). Não sei...talvez fosse importante recuperá-los para os valorizar...
Beijinhos
Teresa MF
Muito bonito, aproveita porque aí aprendes.
ResponderEliminarOI CLARA E MIGUEL!!!! QUE MARAVILLA TODAS LAS FOTOS Y RELATOS DE LOS VIAGES!!!!! SOY EL AMIGO DE LAU BENITEZ, OSCAR, QUE COMIMOS UN ASADO EN BSAS!!! TE ACORDAS???
ResponderEliminarLES MANDO UN BESOS Y UN ABRAZO GRANDE PARA GENTE TAN ESPECIAL Y AGRADABLE!!!!
Olá Oscar!!
ResponderEliminarQue bom receber palavras tuas!!! Claro que me lembro de ti! E que saudades do "Asado" de Buenos Aires...
Não estou com o Miguel, mas o abraço será entregue na mesma!
Muitos, muitos beijinhos para ti! Obrigada!Vamos falando.
Chegámos a meio de domingo, vimos poucas crianças. Na 2ª acordámos tarde e não estavamos preparadas para a "hora da papinha" dos mais pequenos. A oração daqueles pequenos anjos antes da primeira colherada de sopa marcou-me para sempre. Nada nos prepara para aquela cena. Nada nos fará esquecê-la.
ResponderEliminarOlá Clara!
ResponderEliminarComecei hoje a ler o teu blog!
Planeei ler tudo o que escreveste desde o inicio e só depois deixar um comentário.
E comecei a ler (sem batota) desde o primeiro post.. Mas aqui, neste... ao ler... o meu mundo parou exactamente como descreveste esse momento antes de começarem a comer. A minha pele arrepiou-se a emoção inundou literalmente os meus olhos e apertou o meu peito... Não estive lá, não presenciei o que presenciaste.. mas vivi-o atraves das tuas MAGNIFICAS palavras.
Um beijinho GIGANTE.
És Fantastica
Ju (Arouca)